
Artigo 2 de 3 da série "Falar com Máquinas"
No primeiro artigo (https://bit.ly/3Rnh7zq) aprendeste a falar com uma IA. Hoje: com quem falar. Porque não são todos iguais — e as diferenças interessam mais do que parecem.
Antes de começar, dois avisos honestos.
Primeiro: há mais modelos do que batatas. Saem novos todas as semanas — literalmente — e uma lista completa seria brutal e inútil. Vou basear-me nos mais conhecidos e nos que uso. Se o teu favorito não aparece, não é desprezo: é triagem.
Segundo: parte do que se segue é consenso da indústria, parte é experiência minha. Aviso quando for a minha. E uma nota importante: a experiência com um modelo depende muito de quem fala com ele. A forma como comunicas — o contexto que dás, as perguntas que fazes — muda o que o modelo te devolve. A minha forma de comunicar é particular, e por isso a tua experiência pode não coincidir com a minha. Um dia destes escrevo sobre isto, porque merece artigo próprio.
Modelo não é plataforma Este é possivelmente o conceito mais útil do artigo inteiro. A plataforma é a marca; o modelo é o motor. E a mesma marca vende vários motores. Dentro do ChatGPT há vários modelos GPT. Dentro do claude.ai há vários Claude. Há um selector — normalmente discreto, algures no topo da conversa — que quase ninguém toca. E que muda tudo.
A lógica é quase sempre a mesma, em qualquer plataforma: - Modelos leves e rápidos — respondem num instante, servem para o dia-a-dia: perguntas simples, emails, resumos curtos.
- Modelos pesados (os "flagship") — mais lentos e mais caros, mas com outra profundidade. Para trabalho a sério.
- Modelos "thinking" — raciocinam antes de responder, às vezes durante minutos. Valem a pena para problemas complexos; para pedir um email são desperdício puro.
Regra prática: se a resposta te vai custar tempo ou dinheiro caso venha errada, usa o modelo pesado. Se é conversa corrente, o leve chega.
O guia por tarefa Escrever texto Depende do tipo de escrita. Para texto técnico — artigos, relatórios, documentação — quase todos os modelos pesados fazem bom trabalho: qualquer Claude, os GPT maiores, o Qwen 3.6 Plus, o DeepSeek. Para escrita criativa de alta qualidade, o campo estreita: para mim, os melhores continuam a ser o GPT-4o (hoje só acessível via API — explico o que isso é no próximo artigo) e o Claude Opus 4.6. Para literatura mais ousada, há quem prefira modelos com menos restrições de conteúdo — o Grok tem essa fama. Não é a minha praia, mas o consenso existe.
Programar Só posso falar dos que experimentei: Claude Opus, GPT e Claude Fable. Para mim, o Fable está claramente à frente, com o Opus logo atrás. Há quem prefira o GPT-5.6, e o Qwen 3.6 plus e Kimi K2.5 também têm boa reputação.
Um aviso prático: o Fable custa um rim — só está acessível nos planos de topo ou pagando créditos. Para quem começa, um modelo intermédio chega perfeitamente.
Analisar documentos longos Aqui a característica que interessa é a "janela de contexto" — a quantidade de texto que o modelo consegue ter presente ao mesmo tempo. Para relatórios extensos, contratos ou vários documentos de uma vez, procura modelos com janela de 1 milhão de tokens (grosso modo, milhares de páginas). Eu uso o Opus e o Qwen; o Gemini também é conhecido por isto.
Pesquisar com fontes actuais Gemini e Grok fazem pesquisa na web de forma integrada. Muita gente usa o Perplexity — que não é bem um modelo, é um produto construído para pesquisa — e usa-o bem. Não é o meu caso, mas seria desonesto não o mencionar.
Gerar imagens Nano Banana (Google) e o gerador do GPT são, para mim e de longe, os melhores. O Grok também gera; nunca experimentei.
Brainstorming e ajudar a pensar Aqui está a diferença mais subtil de todas — e a que menos gente conhece. Há modelos que apenas comentam o que dizes, e modelos que puxam a ideia para fora, extrapolam, trazem o que tu não tinhas visto. Para brainstorming simples, qualquer um serve. Para destrinçar uma ideia complexa, nova, que ainda não existe — só os modelos de topo. É nestas conversas que a diferença de preço se justifica.
Escrever em português europeu A secção que ninguém escreve — por isso escrevo eu. Nem todos os modelos dominam o PT-PT, e alguns fingem que sim. Na minha experiência, por ordem: GPT, Claude, Qwen, DeepSeek — e depois cai a pique. O Gemini tende a repetir-se, o Grok idem, o Kimi começa a atirar palavras em inglês para o meio das frases, e o Le Chat, da última vez que testei, ainda não falava português de Portugal de jeito. Teste simples que podes fazer: pede um texto na segunda pessoa do singular e vê se os verbos sobrevivem.
Os modelos chineses — uma nota à parte Repararás que o Qwen (Alibaba), o DeepSeek e o Kimi (Moonshot) aparecem várias vezes acima. Não é acaso: são tecnicamente muito capazes, e gratuitos ou quase. Acedem-se por site, como os outros — não precisas de instalar nada. A nota que lhes é específica: os dados vão para servidores na China, com regras de privacidade diferentes das europeias. Não é razão para pânico nem para os ignorar — é razão para critério. Aplica a regra do primeiro artigo com uma camada extra: não escrevas nada que não porias num email a um fornecedor externo.
Como decidir na prática Esquece os benchmarks e os rankings — mudam todos os meses e medem coisas que provavelmente não são o teu caso. A regra durável é outra:
Dá a mesma tarefa real a dois ou três modelos e compara. Um email que precisas mesmo de enviar, um documento que precisas mesmo de resumir. Vê qual devolve melhor. Repete com outro tipo de tarefa. Ao fim de uma semana sabes mais sobre o que te serve do que qualquer comparativo online. O melhor modelo não é o que ganhou o benchmark. É o que funciona para ti, na tua língua, nas tuas tarefas.
Nota de validade Este artigo foi escrito em Julho de 2026. Os nomes e as versões vão mudar — é garantido. Mas as regras de decisão ficam: leve para o corrente, pesado para o importante, janela grande para documentos longos, teste real antes de escolher.
O essencial em três linhas 1. Modelo não é plataforma — procura o selector e aprende a usá-lo.
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Leve para o dia-a-dia, pesado para o que importa.
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Testa com tarefas reais tuas. O melhor modelo é o que funciona para ti.
Já sabes falar e já sabes com quem. No próximo artigo: o que há por baixo das plataformas — API, CLI, tokens, e porque é que alguns modelos só se alcançam por lá.