O livro paroquial aberto no assento n.º 80 — "Não sabem escrever." — e uma mão que, um século depois, assina

Duzentos anos de mulheres que não sabiam escrever, contados pela primeira que assina

1. Esperava castelos

Todos temos aquela curiosidade quase instintiva de saber de onde viemos. Talvez seja algo enraizado em nós: a ideia de que, se olharmos para trás, encontramos qualquer coisa que nos explique. Algo maior do que nós.

Eu confesso: esperava castelos. Esperava fidalgos, brasões, uma linhagem guardada em silêncio como um segredo à espera de ser desvendado. Talvez um conde perdido, um título esquecido, seis apelidos em fila como quem estende a passadeira.

Começou numa noite de semana, sem cerimónia nenhuma. Perguntei se seria possível reconstruir a minha árvore genealógica — e perguntei já convencida de que não, de que gente como a minha não deixa registos. Estava enganada duas vezes. Primeiro, porque os registos existem: os livros paroquiais do Alentejo estão digitalizados, gratuitos, à distância de um ecrã de telemóvel. Segundo, porque o que lá encontrei era muito mais pesado do que qualquer castelo.

Escolhi o lado materno — mulheres, vidas escondidas no tempo — e comecei a escavar, página a página, assento após assento, até aos meus tetravós, nascidos no tempo das Invasões Francesas. E o que encontrei? Jornaleiros, moleiros, criadas de lavoura, mães solteiras que viveram sem voz numa terra onde tudo parecia ser de outros. Encontrei pobreza, analfabetismo, montes isolados na charneca e vidas que mal deixaram vestígios.

Os nomes surgiam, uma linha atrás da outra, na letra torcida dos padres de Melides. Vicente Amado e Maria d'Ana. Constantino Gonçalves e Gertrudes Maria. Francisco Amado e Maria de Jesus. Jacinta Custódia. Maria Jacinta. E no fim de cada assento, invariável como um carimbo, a mesma frase de encerramento:

"Não sabem escrever."

Os pais não sabiam. As mães não sabiam. Os padrinhos não sabiam. Documento após documento, década após década, a mesma sentença. Toda a história desta família foi posta no papel por mãos de terceiros — padres, conservadores, ajudantes de conservatória. Eles viveram-na; outros escreveram-na.

2. A Rocha

A Jacinta nasceu a 14 de março de 1882 num monte chamado Rocha, freguesia de São Pedro de Melides, então concelho de Santiago do Cacém. Era a quarta filha de António José e Custódia Maria — gente casada pela igreja, pobre mas "em ordem", como se dizia. Foi batizada em agosto, cinco meses depois de nascer, porque no campo o calendário de Deus esperava pelo calendário das ceifas. O nome deram-lho emprestado: o padrinho era um lavrador viúvo chamado Jacinto Mateus, e a afilhada ficou Jacinta. Nem o nome próprio era escolha da família — era cortesia para com quem estava um degrau acima.

O mundo dela cabia num raio de quinze quilómetros. Montes caiados e isolados no meio da charneca, água do poço, luz de candeia, o pão escuro que se esticava, a sopa rala. Não era a fome absoluta de não comer nada — era a fome constante, a que nunca mata mas nunca larga. As crianças iam para o campo aos oito, nove anos, muitas vezes descalças, porque nem sempre havia sapatos e, havendo, eram para a missa. Aos doze, a infância acabava de vez: começava-se a trabalhar como adulto, à jorna, nas terras dos outros. Sempre nas terras dos outros.

Médico não havia — nem para a Jacinta nem para ninguém dali. Doença tratava-se com chás e mezinhas, receitas passadas de boca em boca como tudo o resto, e com azeite, que naquele mundo era considerado milagroso: remédio para a dor de ouvidos, para a queimadura, para a tosse, para o que calhasse. Quando o azeite e os chás não chegavam, restava o que sempre restou aos pobres: aguentar, ou não aguentar.

A Jacinta cresceu assim, entre a Rocha e as herdades à volta, analfabeta como os pais, como os avós, como toda a gente que conhecia. E aos vinte e dois anos, solteira, aconteceu-lhe a coisa que naquele mundo definia uma mulher para sempre: ficou grávida. Do homem errado — ou, pelo menos, do homem que nunca lhe assinaria papel nenhum.

3. O papel que cala

No dia 11 de setembro de 1904, na igreja de São Pedro de Melides, o pároco lavrou o assento número oitenta. Está lá tudo, na caligrafia elegante de quem escrevia por ofício as vidas dos que não sabiam escrever:

"…um indivíduo do sexo feminino, a quem dei o nome de Maria, que nasceu nesta freguesia às sete horas da manhã do dia sete do mês de Março do ano corrente, filha de pai incógnito e de Jacinta Custódia, solteira, natural desta freguesia, moradora na Rocha; neta paterna de avós incógnitos…"

Filha de pai incógnito. Neta paterna de avós incógnitos.

A lei da época permitia isto: um homem podia simplesmente não constar. Não era segredo mal guardado, não era lapso — era um direito dele. O pai da minha avó apagou-se do registo com a bênção do Estado, e apagou com ele os pais, os avós, metade inteira de uma árvore. A minha avó entrou na vida com cinquenta por cento da sua existência riscada por omissão voluntária de terceiro.

Mas o assento guarda outro detalhe, e esse é o que me desarma. A Jacinta esteve lá. O documento di-lo expressamente: "Estava presente neste acto a mãe da batizada, que consentiu em que se declarasse o seu nome." Numa aldeia de 1904, uma mulher solteira com uma filha nos braços tinha exatamente um poder ao seu alcance: deixar escrever o próprio nome no livro. Assumir. Dar a cara diante do padre, do sacristão, das testemunhas, da aldeia inteira. Ela usou-o. O pai tinha o direito de desaparecer e desapareceu; a mãe tinha o direito de existir e existiu.

A bebé foi batizada só como "Maria". Sem apelido — não havia nenhum para lhe dar. E então aconteceu a coisa mais alentejana do mundo: o nome da mãe colou-se-lhe por uso. Maria, a da Jacinta. Maria Jacinta. Como antes dela a mãe fora Jacinta, a da Custódia — Jacinta Custódia. Três gerações de mulheres em que o nome da mãe se torna o apelido da filha, a linhagem escrita no próprio nome, à falta de mais alguma coisa para herdar. Os fidalgos empilhavam apelidos como quem empilha propriedades. As minhas avós passavam o nome próprio de mãe para filha, porque era o único património que ninguém lhes podia penhorar.

4. A herdade

Do pai da minha avó não sei nada. E escrevo esta frase com o peso todo que ela tem: perguntei às primas, escavei a memória da família, e a resposta é a mesma do assento — não se sabe. O "incógnito" que um homem inscreveu num livro paroquial em 1904 funcionou tão bem que sobreviveu à própria memória oral. A lei deu-lhe o direito de desaparecer, e ele desapareceu de vez: do papel, das conversas, do mundo. Há apagamentos que duram um documento; este durou cento e vinte anos e continua em vigor.

O que a memória da família guardou foi outro homem — ou talvez o mesmo, nunca saberemos, e é precisamente esse "nunca saberemos" a ferida. A minha bisavó Jacinta viveu anos com um grande proprietário, senhor de uma herdade que estava penhorada. Diz quem ouviu contar que ele ia trocando hectares por barris de vinho, desfazendo o património gole a gole. Nunca casaram. E a Jacinta — e depois também a filha, a minha avó — fartaram-se de trabalhar naquela herdade. A minha mãe resumia-o assim, e a frase dela vale um tratado: trabalharam muito naquela terra, mas ele nunca casou com ela — e a filha dele herdou tudo.

Reparem no mecanismo, porque ele é perfeito na sua crueldade: uma mulher podia dar décadas de trabalho a uma casa e a uma herdade — cozinhar, lavar, ceifar, aguentar o homem e o vinho — e, sem papel passado, sair no fim com exatamente aquilo com que entrou: nada. O casamento não era romance, era o único contrato de trabalho que as mulheres pobres podiam assinar; sem ele, tudo o que davam era juridicamente invisível. Quando o senhor morreu, a herança seguiu a linha do sangue legítimo, e as mulheres que tinham segurado a casa ficaram a ver a terra — a terra que era também o seu suor — passar-lhes ao lado por inteiro.

E é aqui que o sistema deixa de ser abstração e ganha rosto. O Alentejo daquele tempo era quase feudal: meia dúzia de famílias com herdades do tamanho de freguesias, e toda a outra gente sem um palmo de terra, a trabalhar à jorna, ao dia, ao ano — plantando trigo, apanhando azeitona, tirando cortiça, sempre para outros. O equilíbrio era perverso na sua perfeição: havia sempre o mínimo — o pedaço de pão, o trabalho sazonal — para ninguém morrer de vez, e nunca mais do que o mínimo, para ninguém sair. A pobreza era confortável para quem mandava. Mantinha os braços disponíveis e as bocas caladas. Quando nascias pobre, morrias pobre, e pelo caminho os teus filhos já estavam a repetir o ciclo.

O Estado? O Estado estava do lado de quem tinha as herdades. Sempre esteve. Era um casamento de conveniência em que a miséria de muitos garantia o sossego de poucos. E quando um senhor bebia a herdade toda, o sistema nem assim redistribuía nada: a terra penhorada passava ao banco ou à filha legítima, e os que a trabalhavam continuavam exatamente onde estavam. Por baixo.

5. Os Amados

Do outro lado da minha árvore materna está um apelido que eu nem sabia que tinha: Amado.

O meu avô chamava-se Manuel Francisco — e durante muito tempo achei que a pobreza da família se media também nisto, em nomes que eram só nomes próprios empilhados, sem apelido de família nenhum. Manuel Francisco. Maria Jacinta. Gente que nem sobrenome tinha.

Os livros de Melides contam outra coisa. O Manuel nasceu a 20 de janeiro de 1897, "filho legítimo, primeiro do nome e primeiro do primeiro matrimónio" de Francisco Amado, trabalhador, e de Maria de Jesus, moradores num sítio chamado Boa Vista. O pai dele, Francisco, nascera em 1873 no Vale de Guizo, filho de Vicente Amado e Maria d'Ana — e neto de Amados pelos dois lados: Manuel Amado por via do pai, Domingos Amado por via da mãe. Numa freguesia pequena, as famílias cruzavam-se e recruzavam-se até os apelidos rimarem. Havia, afinal, uma linhagem: os Amados de Melides, documentados até ao tempo de D. João VI.

O apelido simplesmente perdeu-se no caminho — caiu do registo do meu avô como quem deixa cair uma coisa sem valor de mercado. E depois reapareceu, à alentejana, nos meus tios: uns registados Amado, outros Amadinho, conforme o que o conservador ouvia e a alcunha que a terra usava. Irmãos com apelidos diferentes, distribuídos quase à sorte. A minha mãe calhou Francisco, do nome do pai. Numa família rica, isto seria escândalo notarial; numa família pobre, era terça-feira.

Entre os antepassados que estes assentos nomeiam há um par que não resisto a destacar: os meus tetravós Ventura Gonçalves e Felicidade Teresa. Sorte e Alegria, com nome próprio, num mundo que não dava nem uma nem outra. Quem precisa de brasão tendo isto?

O Manuel e a Maria Jacinta juntaram-se e nunca casaram. Viveram uma vida inteira assim — e que ninguém leia escândalo onde não há: no Alentejo pobre, anticlerical e prático, viver "amancebado" era perfeitamente normal; o casamento custava dinheiro e não punha pão na mesa. Tiveram nove filhos.

A casa deles, no Canal Caveira, tinha duas assoalhadas — e chamar-lhes "assoalhadas" já é generosidade de inventário: uma cozinha que era também sala, e uma espécie de quarto. Não havia portas por dentro; havia cortinados. Os colchões eram de palha. Não havia luz elétrica, não havia água canalizada, não havia casa de banho — o banho tomava-se de alguidar. Por aquelas duas divisões passaram onze pessoas, embora nunca todas ao mesmo tempo: a casa funcionava por rotação, como as eiras. Os mais velhos saíam mal podiam — para trabalhar ou para casar — e abriam vaga aos que vinham atrás. A pobreza tinha esta logística própria, invisível a quem nunca precisou dela.

A comida era o mapa da escassez, e o centro do mapa era o pão que a Maria Jacinta amassava. O resto era o que se lhe conseguia pôr em cima: pão com toucinho, pão com azeitonas, a açorda alentejana com batata e ovo quando o dia era bom. Uma sardinha para três. Escrevo e releio: uma sardinha para três — e há economias inteiras explicadas nessa fração.

E havia os silêncios, que também eram arquitetura daquela casa. A filha mais velha da minha avó, do tal namoro anterior, não cresceu ali: ficou com a avó, a Jacinta Custódia — porque naquele mundo as avós eram o amortecedor de tudo, criavam os netos que não cabiam nas contas dos pais. E o filho do meu avô, de outra relação, esse nem cortinado tinha: era segredo absoluto. Só soubemos que existia depois de a minha avó morrer. Numa casa sem portas interiores, onde ninguém tinha onde esconder nada, o meu avô conseguiu esconder um filho a vida inteira.

O Manuel morreu em Grândola a 20 de janeiro de 1960 — no próprio dia em que fazia sessenta e três anos. Nasceu e morreu a 20 de janeiro, como se até no calendário a vida dele tivesse sido um círculo fechado. Morreu de cirrose. E aqui não vou embelezar nada, porque a verdade dura conta mais do que a piedosa: o vinho que aparece nesta história a levar herdades também aparece a levar homens. Era a epidemia silenciosa daquele Alentejo — o vinho barato, o trabalho brutal, a taberna como único lazer e única anestesia que um jornaleiro podia pagar. O senhor da herdade bebeu a terra; o meu avô, que terra nunca teve, bebeu o fígado. O mesmo veneno, servido às duas pontas da escala social, cobrando de cada um aquilo que cada um tinha.

A minha mãe tinha treze anos quando ficou órfã de pai. É dos poucos números que a família transmitiu sem falha nenhuma — porque a memória oral perde datas, perde idades, perde nomes, mas guarda para sempre as feridas.

6. A Ilda

A minha mãe chamava-se Ilda Maria Francisco. Nasceu em 1946, no Canal Caveira, e nunca pôs os pés numa escola.

Deixem-me repetir o ano: mil novecentos e quarenta e seis. Não estou a falar do tempo dos meus trisavós — estou a falar de uma mulher que viu televisão, que viu o homem na Lua pela voz dos outros, que morreu já este século. A escolaridade obrigatória existia na lei havia décadas. Mas no monte, a lei era outra: uma rapariga em casa valia pelos braços — guardar os irmãos, acarretar água, ir à azeitona — e com a casa cheia, a Ilda foi mão-de-obra desde que se aguentou em pé. As irmãs, o mesmo. Nenhuma das mulheres da geração da minha mãe aprendeu a ler.

Aos doze anos, fizeram-lhe a mala. A Ilda foi enviada para Setúbal, para casa de outros, como criada de servir — a expressão é da época e não precisa de tradução: uma criança a servir adultos que não eram os seus, a troco de cama, comida e uns tostões que seguiam para o Canal Caveira. Era o destino normal das raparigas do monte: aos oito no campo, aos doze na cidade, pela porta de serviço. A infância dela, que rigorosamente nunca tinha começado, acabou oficialmente num assento de camioneta para Setúbal.

Hoje sou eu que vivo e trabalho em Setúbal. Entro pelas portas da frente dos edifícios — alguns deles desenho-os eu por dentro. Levei anos a reparar na geometria disto: a cidade onde a minha mãe entrou aos doze anos para servir é a cidade onde a filha dela assina projetos. Não foi planeado. Mas há coincidências que fazem o trabalho todo de uma metáfora.

Os números dão-lhe contexto, embora não precisem: o Alentejo rural chegou a meio do século XX com oitenta a noventa por cento de analfabetos, e as mulheres alentejanas estavam entre as mais analfabetas da Europa ocidental. Não do país — da Europa. O Estado Novo, esse, achava por bem: mulher do campo que lesse era, na melhor das hipóteses, um desperdício; na pior, um perigo.

Na linha feminina da minha família — da Custódia Maria, nascida no tempo do Rossio empedrado, até às minhas tias — a primeira geração de mulheres a entrar numa sala de aula foi a minha. Eu. As minhas primas. Nascidas nos anos setenta, já com a escola a sério e o país virado do avesso. Cinco gerações documentadas de "não sabem escrever", e depois, de repente, uma geração que sabe.

Há menos fome, sim. Há escola, há médico, há direitos escritos. Mas dou por mim a fazer a pergunta que não me larga: saímos realmente do sistema, ou o sistema mudou só de roupa? Continua a haver quem nasça com a vida traçada pelo código postal. Continua a haver herdades — chamam-lhes outras coisas agora.

Eu vi-o com os meus olhos. Em 2013 dei formação a miúdos de dezoito, vinte anos, da Zona J, em Chelas. Miúdos espertos, vivos, com o mundo inteiro no telemóvel que traziam no bolso. Alguns já eram pais. Alguns estão hoje presos. E nem um único — nem um — achava que a faculdade fosse coisa para ele. Não era revolta, era pior: era evidência. Perguntava-se e encolhiam os ombros, como quem responde a uma pergunta sem sentido — a faculdade era dos outros, como a terra era dos outros no tempo da Jacinta. Em 2013. Com acesso a todo o conhecimento da humanidade num aparelho no bolso das calças — e sem acesso nenhum à ideia de que esse conhecimento lhes pertencia também a eles.

Foi aí que percebi que a casta já não precisa de se escrever nos livros paroquiais. O "não sabem escrever" dos meus assentos tinha pelo menos a decência de ser visível — estava lá, preto no branco, e podia-se apontar-lhe o dedo. A versão moderna é mais limpa: instala-se por dentro. O sistema já não te fecha a porta da escola; convence-te é de que a porta não é para ti, e ainda fica com ar de quem te deu todas as oportunidades. Os montes isolados agora chamam-se bairros. A jorna chama-se recibo verde. E o senhor da herdade não tem rosto — tem código postal bom.

Anos depois, vi a máquina de perto. Quando o meu filho passou do sexto para o sétimo ano, candidatou-se a uma escola daqui de Setúbal com fama de boa — das melhores públicas da cidade — e entrou. Devia ter ficado só contente; fiquei também revoltada. Porque bastava olhar para o mapa escolar para ver o resto do quadro: enquanto umas escolas somam fama, procura e recursos, outras funcionam como guetos com horário letivo — é lá que o sistema concentra os filhos dos bairros sociais, todos juntos, com menos condições, fora da vista — e depois admira-se de o insucesso não sair dali. Chamam-lhe rede escolar; funciona como triagem. Aos doze anos, sem ninguém lhes perguntar nada, aqueles miúdos já levam meio caminho andado: a escola para onde vais decide metade do sítio aonde chegas. A triagem já não se faz à pia batismal, com um padre a escrever "incógnito" ou "não sabem escrever". Faz-se numa lista de colocações, em setembro, com a mesma indiferença de sempre — e sem deixar sequer assento para uma bisneta vir um dia decifrar.

7. A assinatura

Nunca percebi totalmente porquê, mas desde miúda que me incomoda a ideia de destino pré-escrito. De sermos definidos pelo sítio onde nascemos e pelos apelidos que carregamos — ou pela falta deles. Sempre me foi contra natura a ideia de casta, de gente presa a um tabuleiro que não escolheu. Vivi em luta com isso antes de saber que era com isso que lutava. Agora sei. A revolta tem árvore genealógica: chama-se Custódia, chama-se Jacinta, chama-se Maria, chama-se Ilda. Duzentos anos de mulheres — e sabe-se lá quantos mais antes de haver quem os escrevesse — sem que uma única conseguisse fugir à casta que recebeu ao nascer. Nem uma.

E há uma coisa que me incomodou a vida inteira e que só agora, com os livros de Melides abertos à minha frente, finalmente entendi: eu só tenho três nomes.

Três. Enquanto outras meninas desfilavam meia dúzia de apelidos — aqueles nomes compridos que arrastam quintas e retratos a óleo —, eu era Maria, Beatriz, e o apelido do meu pai. Ponto. Achava aquilo uma pobreza, mais uma. O Maria veio da minha avó, a Maria Jacinta. O Beatriz veio da avó paterna. E do lado da minha mãe não veio nada — porque a Ilda, quando me foi registar, decidiu que "Francisco" não era apelido que se desse a uma filha. Não quis dar-mo. Pensem no tamanho desse gesto: uma mulher que nunca aprendeu a escrever o próprio nome julgou-o, e julgou-o pequeno demais para mim. O último ato da pobreza dos nomes foi a minha mãe a apagar-se a si própria do meu registo — convencida de que me estava a poupar.

Mas enganou-se numa coisa, e é a mais bonita de todas: deu-me o Maria. E com ele, sem saber, entregou-me a cadeia inteira — a Custódia que passou o nome à Jacinta, a Jacinta que o passou à Maria, a Maria que chegou a mim. O meu nome curto não é falta de linhagem: é a linhagem. Três nomes que não arrastam terras nem brasões — arrastam mulheres. Levei décadas e uma escavação num arquivo para perceber que andava embaraçada precisamente da única herança que era toda minha.

Todos os assentos que encontrei acabam da mesma maneira. Depois da data, depois dos padrinhos, antes da assinatura florida do padre, a fórmula de sempre: não sabem escrever. A Custódia não assinou o batismo da filha. A Jacinta não assinou o da sua — esteve lá, deu a cara, consentiu que lhe escrevessem o nome, mas a mão que o escreveu foi a de outro. A Maria Jacinta não assinou nada em oitenta e três anos de vida. A Ilda não assinou os cadernos escolares que nunca teve.

Este texto acaba de outra maneira.

Hoje, uma mulher desta linha lê os livros onde as outras foram escritas por terceiros, decifra a letra dos padres que as registaram, e escreve — esta frase, este ensaio, esta história que era delas e ninguém contou. E no fim, faz a única coisa que nenhuma delas pôde fazer:

Assina.

Por todas elas.

Maria Beatriz Belchior

Ilda Maria Francisco

Maria Jacinta

Jacinta Custódia

Custódia Maria