
Artigo 3 de 3 da série "Falar com Máquinas"
No primeiro artigo (https://bit.ly/3Rnh7zq) aprendeste a falar com uma IA. No segundo (https://bit.ly/4b4VHhn), com quem falar.
Este terceiro é para os curiosos: não precisas de nada disto para usar bem a IA — os dois primeiros chegam perfeitamente. Mas perceber o que está por baixo das plataformas muda a forma como vês a coisa toda. E há modelos que só se alcançam por aqui — incluindo um que prometi explicar no artigo anterior.
A analogia do carro Usar uma plataforma como o ChatGPT ou o claude.ai é comprar o carro feito. Entras, conduzes, está tudo tratado — e depois refilas porque não tem bancos aquecidos. É pegar e andar, mas as escolhas foram feitas por outros. A API é ires comprar o motor. Escolhes exatamente o motor que queres — e depois tens de construir o carro à volta dele. Toda a liberdade, todo o trabalho. E há um meio-termo: usar um pré-molde. Um kit onde o carro já está desenhado e tu só escolhes o motor que lá metes. Ficas quase com a comodidade do carro feito, mas com a liberdade de quem foi à API. Já lá vamos.
O que é uma API, então API significa Application Programming Interface — mas esquece o nome. Na prática: é a porta pela qual programas falam com outros programas. As plataformas que usas todos os dias são, elas próprias, construídas em cima da API — o ChatGPT é uma app que fala com os modelos da OpenAI pela mesma porta que qualquer programador pode usar.
As diferenças práticas para ti: - Pagas ao consumo, não por subscrição. Cada pedido tem um custo, cobrado ao milhão de tokens (já explico o que isso é).
- Escolhes o modelo exato — incluindo versões e variantes que a plataforma não mostra.
- Não há interface — ou constróis uma, ou usas uma feita por alguém.
Tokens — a moeda disto tudo Os modelos não lêem palavras: lêem tokens — pedaços de palavra. Em português, um token equivale grosso modo a três quartos de uma palavra. Esta frase que estás a ler são uns quinze tokens. Tudo na API se mede e paga em tokens: o que envias (input) e o que recebes (output). Os preços anunciam-se por milhão — "X euros por milhão de tokens de entrada, Y por milhão de saída". E há um detalhe que ninguém te diz: numa conversa longa, todo o histórico é reenviado a cada mensagem. É por isso que as conversas compridas custam mais — e é por isso que a "janela de contexto" do artigo anterior tem o tamanho que tem: é literalmente quanto texto o modelo consegue ter à frente de uma vez. Há formas de evitar que pagues um milhão de tokens por input a cada mensagem mas é algo que se aprende com o tempo e é literalmente outro mundo.
A chave do cofre Para usar a API crias uma API key — uma sequência de caracteres que é, ao mesmo tempo, a tua identificação e o teu cartão de crédito. Quem tiver a tua key gasta em teu nome. Regras não negociáveis: não se partilha, não se mete em sites duvidosos, não se cola em código que vai para a internet. Já vi acontecer: uma key exposta num projeto publicado, roubada, e a conta esvaziada por estranhos. A regra de segurança do primeiro artigo aplica-se aqui com juros.
Os modelos que só vivem aqui Agora a promessa do artigo anterior. As plataformas mostram a montra: os três ou quatro modelos actuais de cada casa. A API é o armazém — e no armazém há muito mais. Quando um modelo sai da montra, não morre necessariamente: muitos continuam acessíveis via API durante anos. O GPT-4o é o exemplo que me toca — para mim, ainda hoje um dos melhores modelos de escrita que existem, e já não está em plataforma nenhuma. Via API, continua vivo. Quem só conhece a montra nem sabe que ele existe. É aqui que também podes aceder a modelos open source
O pré-molde — agregadores e apps Lembras-te do kit do carro? Existe, e tem duas peças. A primeira: os agregadores, como o OpenRouter. Uma única conta, um único saldo, e acesso a dezenas de modelos de empresas diferentes — OpenAI, Anthropic, Google, os chineses, modelos open source como os Llama tudo pela mesma porta. É a forma mais simples de experimentar modelos que as plataformas não mostram. A segunda: as apps que fazem a ponte. Interfaces de conversa normais, como as plataformas, mas onde o motor és tu que o escolhes.
Aqui declaro interesse: a nossa ALIOS ONE Chat (ver acima em Open Source) é exatamente isto — gratuita, ligas-lhe a key do agregador e falas com o modelo que quiseres. Construímo-la porque precisávamos dela; partilhamo-la porque mais alguém há-de precisar. Com estas duas peças, qualquer pessoa sem saber programar chega a modelos que a montra não mostra. O carro fica quase feito — só escolheste o motor.
(Nota: A app é gratuita, podes descarregar e usar. O consumo via API não)
CLI — onde os modelos deixam de só falar Um degrau acima na escada técnica: o CLI (command line interface — a linha de comandos, aquele ecrã preto). Ferramentas como o Claude Code correm o modelo diretamente no teu computador, dentro dos teus projetos. A diferença é profunda: na plataforma, o modelo fala. No CLI, o modelo faz — lê ficheiros, escreve código, corre comandos, corrige os próprios erros. É a fronteira onde o assistente de conversa se torna colega de trabalho ou como um dos meus modelos me disse: ''Aqui o bicho tem mãos!'' Para a maioria dos leitores, isto é cultura geral; para quem programa ou quer aprender, é a porta onde vale a pena bater.
Custos na prática — e o aviso que ninguém dá Quando compensa cada via? Regra simples:
- uso regular e previsível → subscrição (os ~20€/mês das plataformas).
- Uso pontual, curiosidade, ou modelos fora da montra → API, onde dez euros de saldo duram meses a quem faz perguntas normais.
Mas há um aviso que ninguém dá: na API não há teto natural. Pagas o que consomes — e há formas de consumir muito, depressa.
Conto-te uma verídica: uma pergunta de investigação, aparentemente inocente. O modelo — com autonomia para isso — decidiu disparar 100 agentes em paralelo para a investigar a fundo. Cem cópias do tal modelo que custa um rim, todas a trabalhar ao mesmo tempo. Dez minutos e 1,6 milhões de tokens depois, veio a resposta: "não, ninguém investiga esse tema." Custo da frase: 75€. (No meu caso não teve problema porque eu tenho o CLI ligado à subscrição claude pro max. Logo o mais que aconteceu foi estoirar o máximo da sessão e esperar 3 horas para voltar) Moral: define limites de gasto na conta (todas as APIs deixam) antes de precisares deles e desativa o carregamento automatico. Ninguém planeia gastar 75€ em 10 minutos numa questão.
E correr modelos em casa? Última paragem da escada: existem modelos de pesos abertos — o Llama, o Qwen, o DeepSeek, o recente Inkling têm versões assim — que podes descarregar e correr no teu próprio computador. Gratuitos, privados, teus: nada sai da tua máquina. A honestidade devida: precisas de uma máquina com músculo, e os modelos que cabem num computador doméstico são bastante mais modestos que os das plataformas. Mas para tarefas simples com dados sensíveis, ou por puro gosto de mexer, é um mundo — ferramentas como o Ollama tornaram-no acessível. Fica a semente.
O essencial em três linhas 1. A plataforma é o carro feito; a API é o motor à parte — e há pré-moldes para quem não quer construir o carro todo.
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Tudo se paga em tokens. Define limites de gasto antes de precisares deles.
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A montra não mostra o armazém — há mais modelos vivos do que as plataformas deixam ver.
Fim da série Três artigos: aprendeste a falar com uma IA, a escolher com qual, e o que existe por baixo de tudo. O resto — e há muito resto — aprende-se como tudo nesta área: a usar, a errar e a iterar.
Se daqui levares uma única ideia, que seja esta: falar com uma IA é uma competência, e é tua. Não é dos informáticos, não é dos cursos de prompts, não é das máquinas. É de quem comunica bem. E isso treina-se.