Editorial — Edição n.º 1

Este era um sonho antigo. Daqueles que se guardam anos na gaveta, não por falta de vontade, mas porque a vida — os projetos, os prazos, as obras — vai sempre empurrando os sonhos para "depois". Pois bem: o depois chegou. Tem nas mãos (no ecrã, vá) a primeira edição da revista digital ALIOS ONE.

E a pergunta legítima é: para quê mais uma publicação sobre engenharia? Não faltam revistas técnicas, boletins de ordens profissionais, artigos científicos, newsletters da especialidade. É verdade, não faltam. Mas repare numa coisa: são quase todas feitas por profissionais, para profissionais. Escritas em dialeto técnico, cheias de siglas, normas e pressupostos que quem é de dentro domina — e quem é de fora nem devia tentar. A engenharia fala imenso consigo própria. E fala pouquíssimo com toda a gente que vive dentro dela.

Porque é isso que todos fazemos, mesmo sem reparar: vivemos dentro da engenharia. O ar que respira neste momento, num edifício, foi pensado por alguém — renovado tantas vezes por hora, filtrado, aquecido ou arrefecido. A água que lhe chega à torneira, a estrutura que segura o teto sobre a sua cabeça, a energia que alimenta o aparelho onde lê isto: tudo passou por cálculos, decisões e compromissos que ninguém lhe explicou. E quando alguém pergunta "mas porque é que a minha casa tem condensação?" ou "o que é isso do NZEB que vem nos anúncios?", a resposta ou não existe, ou vem embrulhada em jargão que afasta em vez de aproximar.

Quem explica a engenharia a quem não é engenheiro? Foi desta pergunta, repetida ao longo de anos, que nasceu esta revista.

O nome não é acaso. Alios é uma palavra latina: significa "os outros". E é exatamente essa a missão — engenharia explicada aos outros. Aos que não são do meio. Aos curiosos, aos que querem perceber a casa onde vivem e o mundo construído onde se movem, aos miúdos que ainda não sabem que isto lhes pode interessar, aos profissionais de outras áreas que sempre quiseram espreitar por cima do muro. Se é "dos nossos", também é bem-vindo, claro — mas aviso já: aqui traduz-se tudo. Regra da casa: se não se consegue explicar a um leitor de dezasseis anos ou de setenta, ainda não está bem explicado.

Quanto a quem escreve: chamo-me Beatriz Belchior, sou engenheira mecânica, projetista de AVAC e térmica — dos tais sistemas que decidem que ar respira nos edifícios — e diretora de departamento de mecânica, com vinte e seis anos de projeto em cima. Venho equipada de série com um cérebro que corre cinquenta e seis assuntos em paralelo (número auditado por quem vive comigo), o que explica como é que, entre projetos e obras, ainda fundei a ALIOS ONE — e agora esta revista. E tenho um defeito de fabrico que me acompanha desde sempre: não me conformo que as coisas fiquem por explicar. Gosto de desmontar temas complexos até ficarem em peças que qualquer pessoa monta — e é precisamente esse defeito que aqui vou pôr ao serviço dos leitores.

E o que vai encontrar nesta edição? Um pouco de tudo o que a casa promete. Nos Meandros da Engenharia, os bastidores que ninguém vê — do AVAC sem glamour à ventilação natural que a lei exige e a prática ignora, passando pelo cliente que contrata engenheiros e depois quer ser ele a fazer o projeto (todos os projetistas estão neste momento a suspirar). No Descomplicador, traduz-se: o que é afinal o BIM, o NZEB explicado sem doutoramento, e como falar com uma IA sem ser informático. Na Contracorrente, as perguntas incómodas — já ninguém constrói para pessoas normais? E nas Conversas com Máquinas, as minhas aventuras com a inteligência artificial, incluindo o dia em que cinco modelos julgaram o meu assistente e todos escolheram o que me insultou. A fechar, na Última Página, um manual de sobrevivência dos anos 70/80, para matar saudades de quando se sobrevivia sem manual. E a revista não vai ficar-se por uma voz só: estão já pensadas entrevistas e artigos de convidados — engenheiros de outras especialidades, gente de obra, investigadores, e sobretudo pessoas capazes de explicar sem complicar, que é a competência mais subestimada da nossa profissão.

Há ainda uma razão mais funda para esta revista existir, e é justo que a conheça já na primeira edição. No Grande Formato deste número conto a história das mulheres da minha família — bisavós, avós, a minha própria mãe — que atravessaram duzentos anos sem que uma única aprendesse a ler ou escrever. Em todos os documentos que lhes registaram a vida, batismo após batismo, repete-se a mesma fórmula: "não sabem escrever." Esta revista é, também, a minha homenagem a essas mulheres. Elas não puderam assinar o próprio nome; eu faço jus à existência delas. Cinco gerações depois, publico uma revista digital. Às vezes são precisas cinco gerações — mas o mundo, mais cedo ou mais tarde, avança.

Uma última nota. Costumo dizer que a boa engenharia é invisível: quando tudo funciona — o ar renova-se, a temperatura acerta, ninguém repara em nada — é sinal de que alguém pensou em tudo. A excelência, na nossa profissão, mede-se pelo silêncio. Esta revista existe para dar visibilidade a esse silêncio sem lhe roubar a elegância: mostrar o que está por trás das paredes, dos tetos e das condutas, e porque é que vale a pena olhar. Se ao fim de cada edição o leitor olhar para o edifício onde está e o vir de maneira diferente, missão cumprida.

Bem-vindos à ALIOS ONE. Isto é para os outros — ou seja, é para si.

Beatriz Belchior

Beatriz Belchior

Engenheira mecânica · Fundadora da ALIOS ONE e da Revista ALIOS ONE