
*Artigo 1 de 3 da série "Falar com Máquinas"*
Todos nós já falámos com uma inteligência artificial — provavelmente esta semana, talvez até hoje.
Muitas vezes sem dar por isso: no WhatsApp, no motor de busca, no telemóvel.
Mas entre usar uma IA por acaso e falar bem com uma há uma distância enorme. E ninguém nos ensinou a atravessá-la. Entretanto nasceu todo um mercado de formações e cursos de "prompt engineering" a vender a ideia de que isto é uma ciência oculta. Já escrevi sobre isso em ''Até as máquinas têm sentimentos — ou porque é que "act as senior" é a maior treta da internet''(https://lnkd.in/eudkyxxY), e a conclusão mantém-se: não precisas disso para nada!
Falar com um LLM é uma competência. Como conduzir ou usar uma folha de cálculo: qualquer pessoa aprende, mas há uma diferença clara entre quem aprendeu e quem vai tocando nos botões a ver o que acontece.
Este é o primeiro de três artigos. Hoje: o que é isto, onde se fala com um, e como falar de forma a obter respostas que prestem.
O que é um LLM, em português corrente LLM significa *Large Language Model* — grande modelo de linguagem. É um programa treinado com quantidades gigantescas de texto, do qual aprendeu os padrões da linguagem humana. Padrões, não um dicionário: aprendeu como as palavras se seguem umas às outras, como se estrutura um argumento, como se escreve um email, um contrato, um poema — não uma lista de definições que consulta.
Duas coisas importantes que resultam disto: Não é um motor de busca. O Google devolve-te páginas que existem. Um LLM gera texto novo, palavra a palavra, com base no que aprendeu. Por isso consegue escrever-te uma carta que nunca existiu — e por isso também consegue inventar factos que nunca existiram.
Não é uma pessoa, mas também não é uma calculadora. É uma terceira coisa, nova, para a qual ainda estamos todos a construir intuições. A melhor postura prática: trata-o como um assistente competente, rápido e incansável — que precisa de instruções claras e de verificação no fim.
Onde falar com um — as plataformas A forma mais simples de usar um LLM é através das plataformas oficiais. Não precisas de instalar nada: abres o site, crias conta, escreves.
- ChatGPT da OpenAI - Gratuito: Sim, com limites
- Claude da Anthropic - Gratuito: Sim, com limites (apertados)
- Gemini da Google - Gratuito: Sim, com limites (para os modelos mais leves nunca atingi o limite)
- Grok da xAI - Gratuito: Sim, com limites
- Le Chat da Mistral - Grauito: Sim, com limites
- Copilot da Microsoft - Gratuito: Sim
- Meta AI da Meta - Gratuito: Sim
Todas fazem relativamente bem o essencial: responder a perguntas, escrever e rever texto, resumir documentos, explicar conceitos, ajudar a pensar. As versões pagas (tipicamente ~20€/mês) dão acesso a modelos mais capazes e a mais utilização.
Qual escolher? Para experimentar, qualquer uma. As diferenças finas entre modelos — qual é melhor para escrever, qual é melhor para código, qual é melhor para analisar documentos — são o tema do próximo artigo desta série.
Como falar — as cinco regras práticas Aqui está o que realmente muda a qualidade das respostas que recebes. Não são truques nem "prompts secretos" — é comunicação básica, aplicada a um interlocutor novo.
1. Dá contexto A diferença entre uma resposta genérica e uma resposta útil está quase sempre no que tu deste à entrada.
- Fraco: "Escreve-me um email ao meu senhorio sobre uma infiltração na cozinha."
- Bom: "Tenho uma infiltração no teto da cozinha. Avisei o meu senhorio por telefone há duas semanas e não fez nada. Quero enviar-lhe um email a expor o problema — tom firme mas educado, sem ser muito longo. O objetivo é que ele mande lá alguém resolver isto esta semana."
Repara na diferença: o primeiro dá o tema; o segundo conta a história e diz ao que vai. O modelo não sabe nada sobre a tua situação a não ser o que lhe contares. Conta-lhe.
2. Diz o formato que queres Queres uma lista? Uma tabela? Três parágrafos? Uma explicação para uma criança de dez anos? Pede exatamente isso. O modelo adapta-se ao formato com facilidade — mas só se lho pedires.
3. Itera — a primeira resposta é um rascunho Este é o erro mais comum: as pessoas fazem uma pergunta, recebem uma resposta mediana e desistem. Uma conversa com um LLM é isso mesmo — uma conversa. Pede um primeiro rascunho e depois trabalha em cima dele: - "Mais curto."
- "Demasiado formal, torna-o mais natural."
- "O segundo parágrafo não faz sentido — em vez disso, diz antes que…"
- "Dá-me três alternativas ao título." Cada resposta é um ponto de partida, não um veredicto. Quem itera obtém resultados incomparavelmente melhores do que quem aceita a primeira versão.
4. Fala como falarias com uma pessoa Não precisas de aprender uma linguagem especial. Escreve com naturalidade, em português, como escreverias a um colega competente. Podes fazer perguntas de seguimento, pedir esclarecimentos, mudar de ideias a meio. O modelo acompanha. E não te limites a pedir tarefas — pede-lhe ajuda para pensar:
"Tenho este problema, já considerei isto e aquilo. Qual das opções te parece mais sólida? Há alguma perspetiva que não esteja a ver?" É nestas conversas que um LLM mostra o que vale.
5. Desconfia com elegância A regra de ouro: um LLM responde com a mesma confiança quando acerta e quando erra. Não hesita, não gagueja, não te avisa que está a inventar — porque não sabe que está. Datas, números, nomes, legislação, referências, citações: verifica sempre antes de usar. Para brainstorming, rascunhos e explicações, o risco é baixo. Para decisões com consequências, a verificação é tua. E há um truque que vale ouro: dá-lhe explicitamente permissão para dizer "não sei" ou "não tenho a certeza". Nem imaginas a diferença que faz.
O que nunca lá pores Uma conversa com um LLM não é um cofre. Regra simples: não escrevas nada que não porias num email a um fornecedor externo. - Passwords e dados de acesso
- Dados pessoais sensíveis (teus ou de terceiros)
- Dados de clientes ou informação confidencial da tua empresa As plataformas têm políticas de privacidade e opções de controlo — mas a primeira linha de defesa é o que decides escrever.
O essencial em três linhas 1. Contexto à entrada determina qualidade à saída.
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A primeira resposta é um rascunho — itera.
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Verifica factos antes de usar. Sempre.
Já sabes falar. No próximo artigo: que modelo escolher — porque não são todos iguais, e as diferenças interessam mais do que parecem.
(*) Há uma ideia instalada de que os informáticos são quem melhor fala com LLMs. Tenho uma opinião totalmente diferente: quem melhor fala com um LLM é quem melhor comunica — quem sabe explicar um problema, dar contexto e ler uma resposta. E isso não se aprende num curso de programação.